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03 maio 2017

200 anos da Revolução Pernambucana de 1817 em Crato: verdades e mitos – por Armando Lopes Rafael (*)

Transcorre hoje o bicentenário da Revolução Pernambucana no Cariri
A então Matriz de Crato (hoje Catedral) foi palco da leitura do "manifesto republicano" do seminarista José Martiniano de Alencar, em 3 de maio de 1817. 

Um movimento muito exaltado, mas pouco pesquisado

      A participação de Crato na Revolução Pernambucana de 1817 tem sido considerado "o maior episódio histórico" desta cidade, desde o advento do golpe militar de 15 de novembro de 1889 que instaurou a República no Brasil. 
Costuma-se dizer que a história é sempre escrita pelos vencedores. Os revolucionários republicanos de 1817 – derrotados pela contrarrevolução do monarquista cratense Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro – só passaram a ser exaltados como heróis, após o golpe militar que impôs a forma de governo republicana no Brasil, em 15 de novembro de 1889. O primeiro livro sobre a História do sul do Ceará (“Apontamentos para a História do Cariri”, de João Brígido, editado em 1861), só se refere a esse movimento revolucionário de forma superficial.
Ademais, os feitos desses republicanos de 1817, no Cariri cearense, são divulgados em proporções maiores que as reais, tanto nos meios de comunicação, como por parte de alguns historiadores. Do Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro pouco se fala. Quando se escreve sobre o efêmero movimento que foi a Revolução Pernambucana de 1817, em terras do Cariri cearense, omite-se a decisiva participação do Brigadeiro Leandro, que debelou aquela revolta. Omite-se, também, a coragem pessoal e cívica de Leandro Bezerra Monteiro naquele episódio.

   Aliás, o historiador cratense J. de Figueiredo Filho, apesar de simpático às ideias republicanas foi veraz ao escrever: “Muito se tem discutido em torno da Revolução de 1817, na Vila Real do Crato. Foi movimento efêmero, que durou apenas oito dias. Ocorreu a 3 de maio de 1817, em consonância com a revolução que eclodiu em Pernambuco. Foi abafada, quase ingloriamente, a 11 do mesmo mês. É verdade que a vila bisonha de então não estava suficientemente preparada para a rebelião que, para rebentar, em Recife, necessitara da assimilação de muitas páginas de literatura revolucionária, da luta entre brasileiros e portugueses, em gestação desde a guerra holandesa e do preparo meticuloso, em dezenas de sociedades secretas, além de fatores econômicos múltiplos”.

Afinal, o que restou da Revolução Pernambucana de 1817 entre nós

Mapa do Brasil-Colônia em 1817: a vastidão do território continental e a ausência de comunicação entre as províncias fez com que a Revolução Pernambucana de 1817 tivesse pouca repercussão fora do Nordeste. Só depois da República criaram-se os heróis e os mitos daquele movimento revolucionário.
   Passados duzentos anos daquele episódio, e analisando de forma objetiva vários escritos e opiniões dos pesquisadores regionais chegamos a algumas conclusão:
i.    O que ocorreu no Cariri, em 1817, não foi uma simples disputa entre clãs familiares, como alguns historiadores escreveram no passado. Tratou-se, na verdade, de um confronto de ideias. De um lado, o proselitismo e ações concretas em favor dos ideais revolucionários e republicanos, feitos por membros da ilustre família Alencar, um dos clãs mais importantes do Sul do Ceará.
ii.    O povo não apoiou os Alencares, que lutaram para impor uma ideologia estranha à mentalidade da sociedade caririense de então.
iii.    Do outro lado, opondo-se às ideias republicanas, esteve Leandro Bezerra Monteiro, um homem dotado de profundas e arraigadas convicções católicas e monarquistas.

Refulge e volta a brilhar a figura do Brigadeiro Leandro

   Parece que o século XXI não vai ser o Século dos Revolucionários, como previam os profetas da esquerda.   Aonde os movimentos da esquerda galgaram o poder, neste início do século XXI, só deixou o rastro de destruição, miséria, corrupção e atraso. Bastaria lembrar a Venezuela e o Brasil, como também a Argentina e o Paraguai, onde o povo deu uma guinada ao centro, repudiando o apoio conferido em eleições aos autodenominados "bolivarianos".
   Daí o interesse que vem despertando, entre nós,  a biografia do Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro, depois de décadas de utopia dos ideais positivistas republicanos.
   Relembre-se, inicialmente, por oportuno, que a fidelidade à Monarquia, por parte de Leandro Bezerra Monteiro e seu clã, motivou a concessão – partida do Imperador Dom Pedro I – da honraria ao ilustre cratense do primeiro generalato honorário do Exército brasileiro. Àquela época, embora em desuso, o posto de brigadeiro correspondia – na escala hierárquica do Exército Imperial – à patente de general.

A mentalidade e o ambiente do povo do Cariri em 1817

    No mais, outro historiador cratense, José Denizard Macedo de Alcântara fez interessante análise sobre a mentalidade vigente na população do Cariri, à época da Revolução Pernambucana de 1817.  A conferir:
    “Um bom entendimento dos fatos exige que se considere a realidade histórica, sem paixões nem preconceitos. Ora, dentre os dados da evolução histórica brasileira há que se ter em conta o seguinte:
a)    a sociedade brasileira plasmou-se, em mais de três séculos, à sombra da monarquia absoluta, com todo o seu cortejo de princípios, hábitos, usos e costumes, não sendo fácil remover das populações esta herança cultural, tão profundamente enraizada no tempo;
b)    daí o apego aos Soberanos, a aversão às manobras revolucionárias que violentavam suas tradições éticas e políticas, os reiterados apelos de manutenção da monarquia absoluta, que aparecem, partidos de Câmaras Municipais – os órgãos públicos mais aproximados das populações – mesmo depois que Pedro I pôs em funcionamento o sistema constitucional de 1826;
c)    o centro de gravidade desta sociedade eminentemente rural era sua aristocracia territorial, única força social de peso na estrutura nacional, repartida em clãs familiares, e profundamente adita ao Rei, de quem recebia posições públicas e milicianas, além de outras benesses, sentimento este que mais se avolumara com a transmigração da Família Real, em 1808, pelo contato mais imediato com a Coroa, bem como pelos benefícios prestados ao Brasil, no Governo do Príncipe Regente;
d)    sendo insignificante a sociedade urbana, era mínima a capacidade de proselitismo da vaga liberal que varria o mundo ocidental, na época, restringindo-se a uma minoria escassa, embora ativa e diligente.
    Donde se conclui que não houve simpatia, nem apoio da sociedade caririense às ideias republicanas da Revolução Pernambucana de 1817, difundidas no Sul do Ceará pelo seminarista José Martiniano de Alencar.

Referências bibliográficas:
FIGUEIREDO FILHO, J. História do Cariri. Vol. I. Edição da Faculdade de Filosofia do Crato, 1964.  p.61  .
ALCÂNTARA, José Denizard Macedo de. Notas preliminares in Vida do Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro. Secretaria da Cultura, Desporto e Promoção Social do Ceará, Fortaleza, 1978. p.26

 (*) Armando Lopes Rafael é historiador. Sócio do Instituto Cultural do Cariri e Membro–Correspondente da Academia de Letras e Artes Mater Salvatoris, de Salvador (BA).

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